O Rádio e o Futebol: uma paixão narrada ao pé do ouvido — e hoje injustiçada
Por Carlos Galdino
Durante décadas, o rádio foi o grande palco invisível do futebol brasileiro. Nas ondas sonoras que percorriam os domingos e as noites de quarta-feira, o rádio aproximou o torcedor da arquibancada, mesmo quando o estádio ficava a centenas de quilômetros de distância. Foi o rádio, com suas vozes marcantes e seus sons característicos, que ensinou o povo a torcer, a amar, a sofrer e a vibrar por seu time. Foi o rádio que construiu, em tempo real, a alma do futebol no Brasil.
Em um país de dimensões continentais e profundas desigualdades sociais, o rádio sempre teve um papel insubstituível: democrático, popular, acessível. Ele era o único veículo que chegava aos grotões do sertão, às comunidades ribeirinhas, às favelas e aos bairros periféricos das grandes cidades. Era pela voz do narrador de rádio — e não da TV — que o torcedor formava imagens mentais de gols históricos, lances plásticos, viradas épicas e defesas milagrosas.
As vozes que forjaram a emoção
Narradores como Fiori Gigliotti, com seu mítico “Abrem-se as cortinas do espetáculo!”, Osmar Santos, o “pai da matéria”, José Silvério, o “garoto do placar”, entre tantos outros, não apenas contaram partidas: eles criaram uma liturgia oral do futebol brasileiro. Seus bordões, sua emoção intensa, sua respiração ofegante acompanhando o contra-ataque viraram marcas gravadas na memória afetiva do torcedor.
E não apenas em São Paulo ou no Rio. Em Pernambuco, por exemplo, a Rádio Clube de Pernambuco formou uma geração de ouvintes apaixonados. A Rádio Jornal e a Rádio Liberdade de Caruaru escreveram capítulos memoráveis da história esportiva do estado, com equipes como o Escrete de Ouro, verdadeiros mitos do microfone nordestino. No Rio de Janeiro, a Rádio Tupi com seu famoso “Show do Apolinho” e vozes como a de José Carlos Araújo, o “Garotinho”, levaram emoção às casas e bares populares. E não se pode esquecer de nomes como Tony Gel, Roberto Queiroz, Jaime Cismeiros, Wilson Bezerra, e comentaristas como Clóvis Gonçalves, Ruy Guimarães, Haroldo Costa, Givanildo Oliveira — profissionais que honraram o ofício de informar e emocionar ao mesmo tempo.
Essas vozes faziam parte de esquadras míticas do microfone, como a Seleção do Rádio, o Escrete de Ouro, a Seleção do Povo. Com seus bordões inconfundíveis — “É fogo no boné do guarda!”, “Pimba na gorduchinha!”, “No pique, no pique!”, “Explode coração!” — eles criaram uma linguagem própria, um jargão que se tornou parte do vocabulário popular do país.
O silêncio que incomoda
Contudo, este mesmo rádio que tanto contribuiu para o fomento do esporte, a formação de torcidas e o fortalecimento da paixão nacional, tem sido, nos últimos anos, injustiçado e marginalizado pelas entidades do futebol brasileiro. Grandes conglomerados de mídia, ao comprarem com exclusividade os direitos de transmissão, passaram a impedir que emissoras de rádio acessem os estádios para narrar as partidas — muitas vezes sem sequer oferecer uma alternativa justa ou colaborativa.
Um direito antes consagrado pela tradição e pela função social do rádio, agora se vê em disputa com barreiras comerciais desleais. Chegamos ao ponto absurdo de torcedores serem barrados em estádios por portarem radinhos de pilha, como aconteceu recentemente em partidas no interior de Pernambuco. Uma imagem simbólica e brutal: o torcedor humilde, com seu radinho no ouvido — herança do avô, ritual do pai, tradição do filho — agora é visto como intruso.
O rádio é parte do jogo
É preciso dizer com todas as letras: o rádio é parte do futebol brasileiro tanto quanto a bola, a rede e a camisa do clube. Sem ele, não teríamos a mesma relação emocional com o esporte. O rádio ajudou a criar o torcedor brasileiro — aquele que sofre, que vibra, que ama, que acredita.
A exclusão das rádios das transmissões esportivas não é só uma decisão de mercado: é uma agressão à memória cultural do país e um ataque à democratização da informação esportiva. O rádio deu voz ao futebol — agora, é o futebol que precisa ouvir a voz do rádio.
Resistência nas ondas curtas
Enquanto isso, emissoras tradicionais lutam para sobreviver. Transmitem partidas de longe, com som ambiente puxado da TV, fazendo malabarismo para manter viva a emoção que só o rádio sabe dar. Mas falta reconhecimento. Falta respeito. Falta sensibilidade por parte das entidades esportivas, dos clubes e das grandes mídias, que se esqueceram de que o futebol não nasceu na tela, mas no coração — e esse coração batia ao som do rádio.
Um apelo por políticas públicas
A retomada do espaço das rádios nos estádios deve ser pauta urgente de políticas públicas e acordos institucionais. É necessário reconhecer o papel histórico e cultural do rádio esportivo brasileiro. Porque nenhum narrador de TV, por melhor que seja, transmite a emoção do futebol como o narrador de rádio.
É preciso garantir acesso gratuito e regulamentado das rádios aos eventos esportivos, fomentar formação e preservação do acervo radiofônico esportivo e estabelecer mecanismos de incentivo à radiodifusão comunitária.
O futebol precisa voltar a ouvir
O futebol que queremos — vibrante, popular, plural, acessível — precisa do rádio. Precisa das suas vozes, das suas emoções e da sua paixão. O rádio é o último elo entre o povo e o campo. Ele não pode ser silenciado. Ele precisa voltar a falar — e a gritar GOOL! — no ouvido do Brasil.
Carlos Galdino, radialista, poeta, produtor cultural e bacharel em Direito. Ativo na cena literária paulistana, é presença constante em saraus, feiras e movimentos culturais.
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