segunda-feira, 16 de junho de 2025

Brasil, vamos parar de mentir oficialmente

 


Brasil, vamos parar de mentir oficialmente

Por Carlos Galdino – poeta, bacharel em direito

É hora de encerrar, de uma vez por todas, a grande farsa da história oficial brasileira. Aquela repetida desde os primeiros bancos escolares até os palanques políticos e os desfiles do 7 de setembro: a mentira bem-vestida de que o Brasil foi “descoberto” em 1500 por Pedro Álvares Cabral e formado a partir de uma suposta harmonia entre “três povos”: o português, o africano e o “índio”.

Essa narrativa não é apenas simplificadora. É deliberadamente forjada. E o mais grave: continua sendo ensinada como verdade, consolidando um projeto histórico que apaga, manipula, silencia e exclui.

O Brasil jamais foi descoberto. Foi invadido.

Em 1500, Cabral não descobriu nada. Já existia gente aqui. Povos diversos, línguas múltiplas, culturas complexas. Povos nativos, não “índios” — termo equivocado, imposto pelo erro de Colombo e perpetuado pela conveniência colonial.

E mais: muito antes de Cabral, os espanhóis já haviam passado por aqui. Navegadores como Vicente Yáñez Pinzón exploraram o litoral nordestino em 1493. O próprio Tratado de Tordesilhas, de 1494, demarca terras que ainda nem haviam sido “descobertas” oficialmente. Cabral veio cumprir um acordo geopolítico — não encontrar um novo mundo, mas tomar posse de um que já era conhecido.

A história brasileira começa, portanto, com uma mentira e um ato de violência. Não há “descobrimento”. Há invasão, saque e silenciamento de vozes milenares.

A falsa tríade: portugueses, africanos e “índios”

O discurso dos “três povos formadores” virou um mantra da oficialidade: portugueses colonizadores, africanos escravizados e “índios” como pano de fundo tropical. Uma simplificação perversa que serve para maquiar a complexidade da formação nacional — e principalmente para excluir deliberadamente os outros povos que estiveram aqui e ajudaram a construir este país.

Não se fala das ocupações francesas no Maranhão e no Rio de Janeiro no século XVI. Nem dos holandeses, que tomaram boa parte do Nordeste e governaram o Recife por mais de 20 anos, promovendo experiências de liberdade religiosa e ciência. Não se ensina nas escolas que os espanhóis dominaram partes do Norte, do Sul e da Amazônia, deixando marcas profundas em várias regiões.

Tampouco se reconhece o papel de sírio-libaneses, judeus sefarditas, italianos, alemães, gregos, japoneses, bolivianos, ciganos, haitianos e tantos outros que chegaram ao Brasil antes mesmo das grandes ondas de imigração do século XIX.

A língua desmente a mentira

Se a história não conta, a língua denuncia.

Nosso vocabulário é um campo de provas da multiplicidade cultural que foi silenciada.

Do árabe, herdamos palavras como:

  • Alface (al-khass)

  • Açúcar (as-sukkar)

  • Algodão, almofada, alicate, açougue, azulejo, xarope, nadir, jirau, narguilé

    — marcas da presença árabe-muçulmana e dos cristãos-novos que fugiram da Inquisição.

Da França, herdamos:

  • Abajur, garçom, maquiagem, ballet, menu, chef, vernissage, moda, boné, paletó, charme, elegância — influência forte da elite francesa no século XIX, que moldou o gosto, a gastronomia e o estilo brasileiro.

Da Espanha, vêm palavras como:

  • Rancho, mula, guitarra, churrasco, fiesta, compadre, gringo, muchacha, patrão, mate, estância — incorporadas especialmente no Sul e Centro-Oeste.

E dos holandeses? Ainda que a ocupação tenha sido breve, restaram termos náuticos e técnicos como:

  • Iate (do holandês jacht),

  • Estiva, bloco, baque, bater, camburão — todos com traços da presença flamenga no Nordeste.

Nossa fala cotidiana é um documento vivo das influências que a história oficial insiste em esconder.

Uma história escrita pelo poder para servir ao poder

Quem conta a história sempre teve o controle da pena — e do que ela cala.

A construção do mito nacional serviu (e ainda serve) para legitimar uma elite, justificar desigualdades e manter uma aparência de “unidade nacional” forjada com silenciamentos.

O Brasil não é o resultado de uma mestiçagem pacífica.

É o campo de uma guerra colonial permanente.

A história contada apaga os quilombos, apaga as aldeias dizimadas, apaga as revoltas populares, os saberes suprimidos, os idiomas assassinados, os corpos invisibilizados.

Reescrever é resistir

O que propomos aqui não é apenas uma revisão historiográfica.

É um ato de justiça.

Precisamos de uma história que diga o nome dos povos que nos formaram — inclusive os que chegaram em menor número, mas deixaram grandes marcas.

Precisamos parar de mentir para nossas crianças, para nossos estudantes, para nossos cidadãos.

O Brasil não nasceu em 1500. O Brasil não foi descoberto. O Brasil foi invadido, silenciado, e depois reinventado por quem resistiu.

É hora de dizer os nomes silenciados. De aprender outras versões. De recontar o Brasil.

De assumir que nossa formação é múltipla, dolorosa, plural, complexa e belíssima — justamente por isso.


Brasil, vamos parar de mentir oficialmente.

Chega de história escrita por quem quis apagar os outros.

Agora é hora de escutar todas as vozes.


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