quarta-feira, 26 de maio de 2010

Amanhã, outro dia.

Amigo Galdino,
Primeiramente, obrigado pelo convite. Espero corresponder à altura.
Adorei o nome “Silêncios”
Disse Badiou que; “Impotente para ser dita ou escrita, toda verdade é, mesmo em silêncio, capaz de revelar novas descobertas.”

Será um grande prazer e uma honra mostrar minha prosa em “Silêncios” por meio de contos e crônicas que publicarei as quartas-feiras.

Hoje silencio pela primeira vez, com o texto “Amanhã, outro dia” um conto em que tento fazer jus ao nome da coluna, porque seu verdadeiro sentido, sua essência, foi inenarrável pra mim. Um texto onde tentei fazer com que o silêncio compusesse o quadro das lembranças...

Abraço,
Marcelo Nocelli



Amanhã, outro dia.




Como sempre ele acordou cedo. Abriu a janela e contemplou o cenário que a cada dia se alterava um pouco. Tão pouco que só se dava conta, espantado, no final de cada ano. Tomou seu café e foi até o portão, como fazia todos os dias para observar os detalhes de cada mudança. Era uma casa antiga que desaparecera. Uma nova que se erguera. Vizinhos desconhecidos. Novos transeuntes. Asfalto. Mercearia. Armarinho. Açougue. Mercado. Calçamento. Caminhões. Carros. Ônibus. Lojas. Escritórios. Prédios residenciais. Comerciais. Supermercado. Por fim se tornou vizinho de uma churrascaria da qual acabou ficando amigo dos manobristas e garçons.

Naquele dia, há pouco mais de trezentos metros, começavam as obras de um grande Shopping. Espantou-se com o barulho da construção. Nunca vira tanta gente trabalhando numa mesma obra. Caminhões que faziam o cimento na hora. Pela primeira vez viu um helicóptero de perto. Mas seu espanto era pequeno, se comparado ao dos operários novos que por ali chegavam e se deparavam com aquele senhor apurado de chapéu, bengala, relógio de bolso, parado em frente ao casarão centenário, único remanescente de um tempo em que os vizinhos mais próximos moravam a algumas centenas de metros, mas pareciam muito mais juntos uns dos outros.

No imenso quintal; pomar com jabuticabeira centenária, mangueira, goiabeira e dois limoeiros de onde, até hoje, ele colhia os frutos para a caipirinha aos sábados. Ao lado do pomar, um galinheiro vazio, assim como o chiqueiro totalmente desabitado, de onde não restara nem o olor de outrora. No fundo, o poço com a bomba manual enferrujada, agora sem uso, testemunhava a força do braço fraco apoiado no portão de madeira. O olhar cansando, fraco e firme iam longe. Os olhos enxergavam em detalhes as modificações em cada metro quadrado daquela rua. O pensamento via como eram antes, quando se conheceu por gente nesse mundo. Só sobrara sua casa. Ele não entendia como isso era tão assombroso aos olhos alheios.

A casa foi construída por seu pai, assim que chegou da Itália. Poucos anos depois, ele nasceu. Filho único, mas cheio de irmãos que chegavam e saiam. Apareciam e sumiam. Naquele quintal deu seus primeiros passos. Andou. Correu. Subiu em árvores. Caiu. Machucou. Chorou. Curou-se. Sorriu. Ali descobriu a mocidade. Jurou mentiras. Desdenhou de verdades. Amou. Sofreu. Perdoou e ofendeu. Ali pediu e agradeceu. Plantou. Colheu. Naquele quintal enterrou tesouros, besouros, brinquedos e muito mais tarde, seus pais. Nunca se casou, apesar de tantas namoradas. Como ele mesmo dizia: Opção. Não dele, do destino.

Naquela sala, em companhia das suas lembranças, fez festa, dançou, bebeu, amou, brigou. Fez novena, quaresma. Ceiou nos dias de natal. Pulou carnaval.

Apesar de tantas propostas, nunca vendeu a casa. Jamais cedeu as pressões dos grandes negociantes. Não os recebia nunca. Quando se aproximavam se fazia de caduco, o que era, além de tudo, sua diversão mais assídua nos últimos anos.

Naquela tarde um homem de terno e gravata, como tantos e tantos outros, parou diante dele, pediu um e-mail para enviar uma proposta tentadora. Ele não respondeu, nem seu deu ao trabalho de perguntar o que aquele homem quis dizer.

Naquela noite recebeu uma mensagem. Era seu coração. Sabia. Tinha certeza.

Naquela noite trancou a porta, como em todas as outras. Mas dessa vez não guardou a chave na caixinha de música, herança de sua mãe. Naquela noite guardou a chave no bolso, junto ao relógio.

Naquela madrugada vestiu seu melhor terno. Preparou um jantar especial no fogão de lenha. Abriu a única, porém, a melhor garrafa de vinho e tomou-a até o fim.

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