domingo, 18 de abril de 2010

Do outro lado da rua


O rapaz que está ali na outra calçada tem uma história que sempre me fascinou desde menina.

Eu devia ter uns treze anos, quando sua mãe, já uma moça, fugiu da nossa cidadezinha com um homem casado. Foi um escândalo na sociedade local. Dizem que fugira já grávida, mas creio que isso não importa muito.

No caminho para longe daqui, o destino os pegou na estrada e ele morreu na hora, nem sofreu. Muitos meses depois ela voltou, um pouco machucada, mas com uma criança nos braços. Era o rapaz que hoje vejo do outro lado da rua.

Cresci lembrando-me dessa história, maravilhada com a coragem da moça e com sua tragédia de amor. Sempre fora muito bonita, uma morena estonteante e calada. Após o acontecido, sua beleza madura e seu olhar perdido eu apenas imaginava, pois nunca mais a vi. E a cidade é pequena. Talvez não a tenha reconhecido na rua, talvez ela tenha se enclausurado. Mas esse "filho de pai morto em acidente após fuga por amor" aguçava minha curiosidade.

Contaram-me que em menino era um bom filho, mas ao crescer tornara-se irrequieto e aventureiro. E belo. Muito belo. Um moreno de olhos azuis com romance de capa e espada no DNA.

Foi o que me disseram meus sonhos sobre esse rapaz que está agora do outro lado da rua, deitado na calçada e coberto com jornal. Nem uma vela acenderam. Nessa madrugada, enquanto eu sonhava, ele batia seu carro no poste em frente à minha casa.

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