Um TCC com nota máxima conforme avaliação da banca examinadora transforma experiência periférica em referência acadêmica e revela como cultura, educação e território podem redesenhar o futuro das cidades.
Por
Carlos Galdino
São Paulo, 07 de
abril de 2026
Entre
concreto, linhas e cálculos, há algo que raramente entra nos projetos
arquitetônicos: a vida. Mas há exceções — e uma delas nasce do encontro entre
universidade e periferia, entre teoria e prática, entre cidade e poesia.
Do Jabaquara para a universidade
Recém-formada
em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, com
nota máxima — 100 —, Sophia Maria Negris Fernandes de Jesus,
escolheu um caminho incomum: olhar para fora dos muros da academia.
Seu
Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado:
“Arquitetura
Multiuso: quando educação, comunidade e cultura se encontram”
não nasce
apenas de pesquisa bibliográfica, nasce também da experiência direta em
territórios culturais.
A experiência como método
Nos
agradecimentos do trabalho, Sophia registra sua vivência no CEU Caminho do
Mar e no Sarau do Jabaquara, reconhecendo o impacto direto dessa
vivência na construção do projeto, conforme registrado nos agradecimentos.
Ali,
encontrou elementos que não se ensinam em sala: convivência, troca, cultura
viva e ocupação real do espaço.
Mais do
que observar, ela sentiu o território.
“A
escola não pode ser uma ilha.”
A ideia de
que a escola não deve funcionar como uma “ilha” atravessa todo o trabalho e
redefine o papel da arquitetura pública.
Arquitetura que respira gente
O
projeto propõe um modelo híbrido de equipamento urbano, articulando escola de
ensino fundamental, centro comunitário e centro cultural em um único espaço
integrado.
No resumo do
TCC, a autora deixa claro que o objetivo é articular educação, cultura e
convivência em um mesmo ambiente, com base em estratégias bioclimáticas e urbanas.
Mas o
diferencial não está só na técnica.
Está na
intenção.
Cidade ao nível dos olhos
O
projeto rompe com a lógica fria da arquitetura tradicional.
Propõe
soluções como fachadas abertas, espaços de permanência, circulação viva e
integração com o entorno.
Uma
cidade pensada para quem vive nela.
Não
para quem apenas passa.
A
arquitetura deixa de ser estrutura e passa a ser encontro.
Quando o sarau vira referência
O ponto
mais potente do trabalho talvez seja este:
o Sarau do
Jabaquara deixa de ser apenas prática cultural e passa a ser tratado, no
contexto do trabalho, como referência para a compreensão de práticas urbanas e
culturais integradas.
A periferia
não aparece apenas como objeto de análise, mas como fonte ativa de referência e
construção de conhecimento.
Entre poesia e projeto
Ao
dialogar com referências culturais e pensamentos que atravessam o território, incluindo o campo simbólico associado a nomes como Salomão Javalar, o
trabalho mostra que cidade também se constrói com linguagem, sensibilidade e
presença.
Não
apenas com concreto.
Mais que um TCC
O
trabalho se organiza em quatro eixos principais, arquitetura e urbanidade,
educação e comunidade, conforto ambiental e projeto aplicado, desenvolvido
como estudo preliminar no contexto urbano de Vitória (ES).
Mas há
um quinto elemento, não escrito:
escuta
Sophia
não impõe um projeto.
Ela traduz uma experiência.
Há
trabalhos que encerram ciclos.
Este
inaugura caminhos.
Ao
levar o Sarau do Jabaquara para dentro da universidade e devolver à sociedade
em forma de proposta arquitetônica,
Sophia
constrói mais do que um edifício possível:
ela
constrói reconhecimento.
E
mostra que a poesia, quando levada a sério, também pode influenciar a forma
como pensamos e projetamos as cidades.
Carlos
Galdino
Coletivo Sarau do
Jabaquara
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