quarta-feira, 8 de abril de 2026

Quando a Poesia Vira Planta Baixa: o Sarau do Jabaquara na Arquitetura de uma Nova Cidade

 

Um TCC com nota máxima conforme avaliação da banca examinadora transforma experiência periférica em referência acadêmica e revela como cultura, educação e território podem redesenhar o futuro das cidades.

 

Por Carlos Galdino
São Paulo, 07 de abril de 2026

 

Entre concreto, linhas e cálculos, há algo que raramente entra nos projetos arquitetônicos: a vida. Mas há exceções — e uma delas nasce do encontro entre universidade e periferia, entre teoria e prática, entre cidade e poesia.

 

Do Jabaquara para a universidade

Recém-formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, com nota máxima — 100 —, Sophia Maria Negris Fernandes de Jesus, escolheu um caminho incomum: olhar para fora dos muros da academia.

Seu Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado:

“Arquitetura Multiuso: quando educação, comunidade e cultura se encontram”

não nasce apenas de pesquisa bibliográfica, nasce também da experiência direta em territórios culturais.

A experiência como método

Nos agradecimentos do trabalho, Sophia registra sua vivência no CEU Caminho do Mar e no Sarau do Jabaquara, reconhecendo o impacto direto dessa vivência na construção do projeto, conforme registrado nos agradecimentos.

Ali, encontrou elementos que não se ensinam em sala: convivência, troca, cultura viva e ocupação real do espaço.

Mais do que observar, ela sentiu o território.

“A escola não pode ser uma ilha.”

A ideia de que a escola não deve funcionar como uma “ilha” atravessa todo o trabalho e redefine o papel da arquitetura pública.

Arquitetura que respira gente

O projeto propõe um modelo híbrido de equipamento urbano, articulando escola de ensino fundamental, centro comunitário e centro cultural em um único espaço integrado.

No resumo do TCC, a autora deixa claro que o objetivo é articular educação, cultura e convivência em um mesmo ambiente, com base em estratégias bioclimáticas e urbanas.

Mas o diferencial não está só na técnica.

Está na intenção.

 

Cidade ao nível dos olhos

O projeto rompe com a lógica fria da arquitetura tradicional.

Propõe soluções como fachadas abertas, espaços de permanência, circulação viva e integração com o entorno.

Uma cidade pensada para quem vive nela.

Não para quem apenas passa.

 

A arquitetura deixa de ser estrutura e passa a ser encontro.

Quando o sarau vira referência

O ponto mais potente do trabalho talvez seja este:

o Sarau do Jabaquara deixa de ser apenas prática cultural e passa a ser tratado, no contexto do trabalho, como referência para a compreensão de práticas urbanas e culturais integradas.

 

A periferia não aparece apenas como objeto de análise, mas como fonte ativa de referência e construção de conhecimento.

Entre poesia e projeto

Ao dialogar com referências culturais e pensamentos que atravessam o território, incluindo o campo simbólico associado a nomes como Salomão Javalar, o trabalho mostra que cidade também se constrói com linguagem, sensibilidade e presença.

Não apenas com concreto.

 

Mais que um TCC

O trabalho se organiza em quatro eixos principais,  arquitetura e urbanidade, educação e comunidade, conforto ambiental e projeto aplicado, desenvolvido como estudo preliminar no contexto urbano de Vitória (ES).

 

Mas há um quinto elemento, não escrito:

escuta

Sophia não impõe um projeto.
Ela traduz uma experiência.

 

Há trabalhos que encerram ciclos.

Este inaugura caminhos.

Ao levar o Sarau do Jabaquara para dentro da universidade e devolver à sociedade em forma de proposta arquitetônica,

Sophia constrói mais do que um edifício possível:

ela constrói reconhecimento.

E mostra que a poesia, quando levada a sério, também pode influenciar a forma como pensamos e projetamos as cidades.



Carlos Galdino
Coletivo Sarau do Jabaquara

 

 

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