quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Amores vãos ou... Cenas de amores estreitos


Todo mundo um dia já sentiu, já se viu traído ou teve ou reteve, distraído, o seu.

Aquele amor a esmo e desavisado que de amor não tem nada mesmo, além do nome mal empregado. Que é engano do coração que cobra, tirano e invasivo, compensação para o que sobra de vazio e solidão no seu porão.

Amor que é em verdade pedido de amor a si, orgulho ferido. Vaidade engodo de magnanimidade. Desesperado e desenfreado ato mal disfarçado e feio de não aceitação do não-amor alheio.

Como assim ‘este ser’ tão chinfrim não se apaixonou por mim? Se eu, tão bom e superior fui até condescendente, no dissabor, com seus defeitos mais abjetos e lhe entreguei o meu tão caro amor? Como assim, ‘este ser’ insignificante não percebeu minhas tão raras qualidades de amante, e desprezou minha tamanha (tacanha) doçura, minha santa (anta) submissão e minha total (fatal) entrega?

Amor vão: tão estreito que passa com jeito em qualquer fio desencapado no lixão. Amor chão: feito serpente, esfrega a barriga bem rente e, sem vergonha, logo mostra a peçonha. Amor cão: desses abana rabo por qualquer migalha de atenção. Amor pedinte: do tipo ‘pelo amor de deus não me deixe porque não posso viver sem ti’. Amor cristão: deus não vai te perdoar por isso, pagão. Amor de bosta: porque não sou nada eu grudo em ti, me gosta. Amor muleta: preciso de você mesmo careta e com maleita.

Agora eu to bem esperta. Se um amor desses me acerta, eu tiro onda, faço um meneio e jogo logo pra escanteio. Mas se chega num estágio, em que me manda a bola de volta, me afronta, ou me cobra pedágio. Então tá, então. Já que faz tanta questão: eu mando a conta.

AnaCris Martins

Um comentário:

Maria Flor✿ܓ disse...

Pois é, quem já não se sentiu traído? E como dói...
Meus aplausos.

Beijos