terça-feira, 8 de junho de 2010

Dedé o rei do futebol

Dedé o rei do futebol



Circulando toda a volta do estádio Paulo Machado de Carvalho - mais conhecido como Pacaembu - Dedé sonha com o dia de sua estréia. Estádio lotado, torcida ensandecida de emoção, camisa dez com seu nome nas costas. Entra em campo rodeado de crianças uniformizadas - todas querendo entrar de mãos dadas com ele. É dia de clássico. Final do campeonato paulista. Inicio de um jogo decisivo. Nervos à flor da pele. Primeiro tempo tenso, jogadas duras, meio-campo truncado, os goleiros se destacam na partida. O primeiro tempo termina em zero a zero. Inicio do segundo tempo, o jogo recomeça da mesma forma, até os vinte minutos nada de gols. Dedé sabe que seu time precisa ganhar por ao menos um gol de diferença, o empate dá o titulo ao time adversário... Eis que aos quarenta minutos do segundo tempo Dedé recebe lançamento do lateral esquerdo, dribla um, dribla dois, um chapéu no terceiro, entra na área passa pelo goleiro e GOOOOOOOOLLLLLL!


- Levanta daí moleque! Vai acorda! Ta fazendo o quê, andando em volta do estádio? Usando drogas? Pergunta o policial, antes mesmo de descer da viatura.

- Nada não seu guarda, só estava descansando um pouco.

-Aqui não é lugar de trombadinha dormir, vai trabalhar... Estudar... Procurar o que fazer... Vamos... Vamos circulando.

-Desculpe seu guarda, já to saindo... Eu ajudo minha mãe vendendo panos de prato na rua. Como já vendi todos hoje, estava dando uma volta no estádio. Eu adoro esse lugar, meu sonho é um dia pisar nesse gramado.

- Mas nem pra gandula você serve moleque, vai... Circulando - diz o policial com ironia.


Dedé pega o caminho de casa. Não entende muito bem porque não pode andar em volta do estádio. Será que tem mesmo cara de ladrão? Doze anos e já tem cara de ladrão? Será que é sua cor? Não... Não pode ser, estamos em outro século, viu isso na escola, a descriminação racial acabou no século passado. Além do mais, Pelé, o rei do futebol... A pessoa mais importante do mundo... É negro. Ronaldinho Gaúcho. Samuel Eto’o. Robinho... Dedé tem orgulho disso, ele até se acha muito parecido com o jogador da seleção nas fotos de garoto. A garotada da vila também, não só na aparência, mas também na intimidade com a bola nos pés... As pedaladas lá no campinho. Dedé é o rei do futebol lá na vila. É sempre o primeiro a ser escolhido na hora do par ou ímpar, nunca fica de fora dos clássicos. Se ele atrasa um pouco, a molecada vai buscá-lo em casa, e quase sempre no final dos jogos é carregado pelos companheiros do time, é sempre o artilheiro, o melhor em campo, o capitão do time, orientando, elevando a moral dos jogadores, armando o time e comandando o ataque.



No caminho de casa, os sonhos voltam... Poderia se destacar no time do bairro. Quem sabe não aparece uma proposta para um time grande. Olheiros. Eles existem, já ouviu falar deles. Um dia alguém olharia por ele. Depois seria contratado por um time europeu, quem sabe seleção brasileira... Ser eleito o melhor do mundo. Comprar a tão sonhada casa para sua mãe. Ajudar a família, os amigos. Proporcionar à mãe a possibilidade de aprender a ler e escrever. Se livrar do padrasto que tanto os maltrata...


Ao entrar em casa, ainda extasiado pela imagem do futuro, Dedé encontra a mãe caída no chão com os olhos roxos e hematomas pelo corpo. Ao lado, o padrasto bêbado, chorando. Quantas vezes aquela cena ainda iria se repetir? Não suportava mais. Sem pensar, Dedé abre a gaveta da pia, pega uma faca. Ameaça. O homem parte para briga. Dedé só queria colocá-lo para fora. Intimidar. Ele não tem escolha. Tudo acontece muito rápido. Quase sem querer. A faca cai no chão, Dedé não se move.


*****

Finalmente chegou o grande dia, tarde ensolarada de domingo, a torcida grita seu nome de uma forma ainda mais emocionante para Dedé, sua mãe está na torcida. Após um campeonato duro, com jogos decisivos, seu time chegou à final. Inicio de um jogo duro, nervos à flor da pele, primeiro tempo tenso, jogadas duras, meio-campo truncado, os goleiros se destacam na partida. O primeiro tempo termina em zero a zero. Inicio do segundo tempo, o jogo recomeça da mesma forma, até os quarenta e cinco minutos nada de gols... Dedé recebe lançamento do lateral esquerdo, dribla um, dribla dois... É derrubado na área. Pênalti! Ele coloca a bola na marca. Cobrança autorizada, goleiro para um lado, bola para o outro, e é GOOOOOOOOLLLLLL... Do artilheiro Dedé... Fim de jogo e o time do pavilhão dois é o campeão do torneio da penitenciaria do estado.

Um comentário:

Anônimo disse...

Cadeia foi feita é pra homem-mesmo!
Cê confirma as horas pra mim!?
Esse relógio aí tá certo!?