terça-feira, 1 de junho de 2010

Achados & perdidos.

Achados & perdidos.


Eu nunca achei nada. É nunca encontrei nada. Na minha família todo mundo já achou alguma coisa. Minha irmã já achou dinheiro na rua, minha mãe já achou corrente de ouro, carteira, cartão telefônico e até cartão de crédito. Até meu pai já achou coisas nesta vida: livro em banco de praça, relógio, cartão de bilhete único carregado. Meu pai também já achou que eu era veado. Hoje ele não acha mais isso. Hoje ele acha que eu sou vagabundo.

Eu nunca achei nada. Nunca achei dinheiro na rua. Nunca achei uma faculdade ou curso que me interessasse. Nunca achei emprego e nunca achei uma namorada decente.

Desde criança é assim. E pior que não achar nada, é ser sempre achado. Desde os tempos das brincadeiras de esconde-esconde.

É... Sempre fui achado. A polícia já achou que eu era maconheiro, ladrão... Meus vizinhos acham que eu sou mal-elemento. Meu pai, como disse acha que sou vagabundo, e minha mãe acha que eu sou um coitado. E eu, não acho nada.

E mesmo quando achava alguma coisa. Achava errado. Tempos atrás, uma garota lá do bairro, disse que achava que estava grávida. Esperando um filho meu. Eu achava que não poderia ser meu. E não é que era. DNA e tudo. Naquele dia achei que eu estava fodido. Mas não. Achei errado, mais uma vez. O menino cresceu. É um garoto esperto. A mãe não me cobra nada. E posso vê-lo quando quero. Acho que está tudo bem. Melhor não achar nada por enquanto. Acho que a mãe dele gosta de mim. Mas acho que ela acha que eu não seria um bom marido, talvez nem um bom pai. Acho que ela pensa isso porque eu nunca achei um emprego, consequentemente nunca tenho dinheiro pra nada, e ela é daquelas pessoas que pensam que o dinheiro determina o valor dos outros.

Ela arranjou um outro cara. Estão morando juntos. E por isso meu pai agora acha que eu sou corno. Mas eu não acho isso, nunca tivemos um relacionamento. Foi apenas uma transa. Eu acho.

Só sei que, durante muito tempo fiquei achando que realmente não daria em nada. Que minha vida era fútil, que nunca acharia nada pra fazer... Mas de uns tempos pra cá, comecei a me interessar por poesia. E agora estou achando que sou poeta e meu pai continua achando que eu sou um vagabundo.





Marcelo Nocelli

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