segunda-feira, 31 de maio de 2010

Mazelas de chita



Não sei as mazelas da sua família, nem ao menos sei da minha. E não é por falta de ter quem conte. É porque elas doem.
Elas são irmãs há mais de sessenta anos. Tiveram suas dores igual a toda família nordestina pobre. Da dor de ver a mãe roubar galinha pra alimentar os filhos, à dor da morte da irmã ainda criança. Um estoque de dores, nem todas sanadas e sequer conhecidas.
Selma e Cleide são minhas tias mais velhas por parte de mãe. Penso, que apenas com três anos de intervalo. Foram elas as protagonistas de uma dor que eu não pretendia conhecer.
Não havia roupas e chinelos para todas. Sempre soube do episódio que minha mãe chorou amargo por não ter um chinelinho para ir até o parque de diversões ver a roda gigante. Apenas ver. Brincar no carrossel não era sonho para os pobres e ela sempre soube.
Em uma época ainda mais severa, elas ficavam com a mesma roupa e quando era preciso lavar, elas tinham que ficar trancadas no quarto por não haver outra pra usar. O jeito era esperar secar para poder usar novamente os trapinhos.
E tia Selma tinha um vestido de chita super simples, o único vestuário dela. Ela devia ter uns dez anos na época. A roupa que ia pra escola, pra missa e pros passeios. O mesmo vestidinho de chita que eu imagino alegre , simples e de alcinha. Devia enfeitar lindamente tia Selma, que mesmo hoje a véspera dos setenta, ainda possui beleza.
Sempre ouvi comentários que Tia Cleide se calava quando chegava Tia Selma. Ela poderia estar no papo mais animado, mas quando Tia Selma se aproximava ela fechava a cara e só voltava a conversar quando a outra saísse. Convenhamos que isto não é um comportamento normal entre irmãs. Algumas vezes eu até presenciei mas não dei a atenção que deveria dar.
A paciência assim como as digitais é algo único de cada ser humano. E Tia Selma fingiu não se incomodar durante décadas com o silêncio de Tia Cleide.
Passaram mais de cinquenta anos quando ela resolveu perguntar a Tia Cleide o motivo dela agir assim quando ela chegava. E desta vez, Tia Cleide rompeu o silêncio. E nem os mais criativos escritores ou roteiristas poderiam supor.
Na época do vestidinho de chita da Tia Selma, Tia Cleide devia ter uns sete anos.
E em um dia que o trapinho de Tia Cleide estava lavando ela deveria ir a algum lugar. E pediu o vestidinho de chita de Tia Selma, que se negou a emprestar pois isto era sinônimo de ficar trancada no quarto.
E tia Cleide não pode sair.
E tia Cleide nunca pode sair da mágoa que alimentou durante quase seis décadas.
Ambas eram meninas. Meninas pobres. Meninas pobres com apreço ao pouco que tinham. Meninas pobres ciumentas como qualquer menina.
E de nada valeu os vestidos de grife que tia Selma presenteou tia Cleide durante todos estes anos. Porque a mágoa estava silenciosa e crescia feito maria-sem-vergonha. Uma bobagem! Uma mesquinharia de criança que não deveria ter importância alguma. Mas teve. Uma mesquinharia de criança que apenas uma parte lembrava e sofria.
Tia Selma se ajoelhou chorando e pediu pelo amor de Deus o perdão por ter negado o vestido. Não havia o que falar. Não havia o que fazer.
Quanto mal Tia Cleide se fez durante décadas. Quanta dor calada.
E enquanto eu ouvia esta história eu chorava de pena de minhas tias. Não por serem pobres. Pelo silêncio.
Quantas mazelas de chita eu semeei sem saber? Hoje eu ando refletindo alguns silêncios.

Um comentário:

AnaCris (Nika) disse...

Bah, que texto delicioso e tocante! Gostei muito, menina.
E, olha, essas pequenas mágoas são as piores e nascem com uma facilidade que só vendo. Me vi muito aí e nem nasci no nordeste. Pobre, embora não tão pobre assim. Mas digamos q tendo que me virar com pouco, num mundo que te ensina a todo momento a querer muito. Mas ô coisa difícil essa convicência de tantas mulheres! De tantos quereres!