domingo, 6 de abril de 2008

O S.A.M.P.A (SERVIÇO AMBULANTE DE MUSICA E POESIA ALTERNATIVA )APRESENTA :

A LAJOTA


“ O contista – essa bicha pobre faz sua fantasia de

carnaval com treze mil e uma asinhas de mosca.”

Dalton Trevisan




Entro movido pela sensação de vai-quem-pode. Poderia permanecer horas a fio do lado de fora, meditando simplesmente ou refletindo sobre a inércia, ter pernas é mesmo uma benção? Para quê as quero? Ter pernas, quando muito, não passa de um privilégio. Penso nos milhões de aleijados e, solidário, não prossigo. Retiro da valise um tecido branco, acocoro-me e esfrego-o no chão, obedecendo a um ritual que ninguém me ensinou (o uso consagra o meu pedantismo).

Mal o tecido absorve a imundície da primeira lajota (a mágica) e sou transportado para um pretérito indefinido que pode ser acolá, sempre ou amanhã. Se as trombetas calhassem de soar neste instante eu não ouviria, entretido que estou em não estar aqui, mas retrocedido (mapa astral tatuado nos cornos), trepado no bonde repleto.

O bonde enguiça e eu pergunto quem ousa obstruir minha passagem (nós só estamos de passagem). “Reclamar é um direito que me assiste”, retruco (não obtempero) sem nunca ser interpelado. E não pondero e não admito: “Eu não nasci ontem, vocês pensam que eu nasci ontem?”. Ninguém responde, ninguém se importa e dou por encerrado (aborto espontâneo) o acesso de faniquito (ui ui ui). Lotado, o bonde (malgrado os usos da época e a escassez de assentos reservados, nenhum para ser exato) me deixa na porta de casa. Restando girar a chave, sou acometido pelo desejo de não entrar (o uso consagra o meu cagaço). Resisto.

Retomo a limpeza da lajota (a mera) que em verdade não carecia de limpeza, limpeza que, convenhamos, não foi interrompida (claro está que sequer foi iniciada, se rito). Contudo, o tecido outrora branco está encardido.

Servirá de coador ou presságio.

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